O dia depois do Mounjaro · MB Health
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21 de maio de 2026 · Newsletter

O dia depois do Mounjaro

Fala galera,

Essa semana abri o WhatsApp e vi a mesma pergunta voltando de aluno em aluno, em silêncio:

E quando eu parar com a caneta?

Faz sentido. O Brasil hoje tem 1 a cada 3 lares com alguém usando alguma caneta. Mounjaro virou o medicamento mais buscado no Google. Vendeu mais que Ozempic no último trimestre.

E a maioria começa achando que vai usar até chegar no peso. Chega. Para. Daí ninguém te conta direito o que acontece no dia seguinte.

01

O que a caneta realmente faz.

O Mounjaro, o Ozempic, o Wegovy, todos imitam o GLP-1, um hormônio que o seu intestino já produz quando você come. Esse hormônio é uma ponte entre o estômago e o cérebro. Ele faz duas coisas principais: avisa o pâncreas pra liberar insulina e avisa o hipotálamo (a central de comando da fome) que tem comida chegando.

A caneta amplifica esse sinal de saciedade. Por isso a fome some. Você come menos. Perde peso.

Tem outra camada por baixo dessa.

A caneta também age na área tegmental ventral e no núcleo accumbens . Essas duas regiões formam o sistema de recompensa do cérebro. É a parte que decide "quanto vale a pena buscar esse alimento". A dopamina circula por ali. Quando você vê uma foto de hambúrguer e o cérebro acende, é nessa região.

A caneta diminui essa resposta. Por isso quem usa relata "perdi o desejo por doce". O querer se silencia junto com a fome.

02

Por que isso importa quando você para.

O peso cai. Os números do estudo são claros: a tirzepatida (Mounjaro) leva à perda de 21% do peso corporal em 72 semanas. A semaglutida (Ozempic, Wegovy) chega perto de 15%. São resultados reais, documentados em ensaios clínicos com dezenas de milhares de pessoas.

Daí vem o dia depois.

O ensaio SURMOUNT-4 acompanhou pessoas que perderam peso com tirzepatida e depois pararam. Em 52 semanas, recuperaram 14% do peso. O ensaio STEP-1 fez o mesmo com semaglutida: dois terços do que foi perdido voltou em um ano.

E no mundo real é pior. Um estudo com 125 mil pessoas mostrou que 65% das que não têm diabetes param de usar em 1 ano . Não por escolha. Por custo, por efeito colateral, por cansaço da agulha.

Por que volta?

Porque a caneta nunca foi a estrutura. Foi a ferramenta empurrando o elástico pra um lado. No dia que ela sai, o elástico volta. Lembra na newsletter #004?

03

A camada que muda tudo.

E aqui entra o que ninguém te conta.

Quando você perde muito peso, três coisas acontecem dentro do seu corpo. Não amanhã. Hoje, enquanto você está usando.

A leptina despenca. Esse é o hormônio que o tecido adiposo produz pra avisar o cérebro: "tá tudo bem aqui, tem energia". Menos gordura, menos leptina, o cérebro entende escassez. Aciona o modo economia.

A grelina sobe. Esse é o único hormônio que gera fome. Estômago vazio, grelina alta, núcleo arqueado do hipotálamo dispara: "buscar comida agora". Enquanto você está com a caneta, esse sinal está abafado. Sem a caneta, ele volta no volume original. Às vezes em volume maior.

E o sistema de recompensa recalibra. Aquele "querer" que estava silenciado começa a ressurgir. Comidas que você nem lembrava aparecem na cabeça com clareza estranha. É a química do cérebro voltando ao padrão antigo.

Some essas três coisas e você tem o que a literatura chama de defesa fisiológica do peso. O mesmo elástico da semana passada, agora puxando com a caneta ausente do outro lado.

04

O que dá pra fazer do lado da alimentação e do corpo.

Aqui é onde eu entro. As decisões sobre dose, desmame e quando parar passam pelo seu médico que prescreveu, e elas devem passar. Mas tem uma camada inteira nutricional e comportamental, e nessa eu posso te ajudar.

Volume e densidade. Pratos cheios com poucas calorias. Vegetal verde escuro, legumes, frutas inteiras. O estômago precisa do volume pra sinalizar saciedade pelo nervo vago. Caloria líquida e ultraprocessado escondem o sinal.

Proteína. Entre 1,6 e 2,2 gramas por quilo de peso. Esse é o range que protege a massa magra. Os estudos com agonistas de GLP-1 mostram perda de músculo junto com a gordura, especialmente em quem não treina força. Massa magra é o motor metabólico. Perde músculo, perde gasto basal, o set point sobe.

Treino de força. Duas a quatro vezes por semana. Sem isso, o que você reconstrói depois é gordura no lugar de músculo. E sem músculo, o reganho vem mais forte.

Reposição. Quem usou caneta por meses geralmente está com vitamina B12, ferro, vitamina D e magnésio baixos. Não pela caneta diretamente, pela ingestão reduzida ao longo do tratamento. Vale o checkup laboratorial de saída.

Restauração do ritmo. A caneta segurou sua fome num horário diferente do natural. O corpo precisa reaprender o relógio. Refeições estruturadas, horários estáveis, exposição à luz da manhã. O ritmo circadiano vai regular sua leptina, grelina e até a sensibilidade à insulina.

E o trabalho que ninguém vê. O comportamento alimentar. Durante a caneta, o "querer" estava abafado. Você não treinou a habilidade de lidar com vontade real. Quando ela volta, vem sem repertório. Esse trabalho é gradual. Não tem atalho. Idealmente esse trabalho começa antes da caneta entrar em jogo.

05

Onde isso te leva.

A caneta funciona. Os estudos mostram, os meus alunos que usam mostram, o mercado mostra. Mas ela é ferramenta. Não estrutura.

A pessoa que para a caneta com estrutura formada (sono regulado, treino de força firme, alimentação que cabe na vida real, comportamento alimentar trabalhado) tem chance real de sustentar boa parte do resultado. A pessoa que para sem estrutura volta pro elástico de antes. Quase sempre com algo a mais, porque o set point recalibrou pra cima.

A caneta foi o atalho.

A estrutura é o caminho.

Se quiser conversar sobre, me chama no WhatsApp.

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Um abraço,

Maicon Batista

Educador Físico · Nutricionista · Especialista em Neurociência do Comportamento

CREF 039219-G/MG · CRN9 37025

Estudos e referências usadas nesta carta

Aronne LJ, et al. Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction (SURMOUNT-4) . JAMA, 2024. PMID: 38078870.

Wilding JPH, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension . Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022. PMID: 35441470.

Gleason PP, et al. Discontinuation and Reinitiation of Dual-Labeled GLP-1 Receptor Agonists Among US Adults With Overweight or Obesity . JAMA Network Open, 2025. PMID: 39888616.

Velji-Ibrahim J, et al. Eficácia de agonistas de GLP-1 para perda de peso: revisão sistemática de 22 ensaios clínicos com 41 mil participantes . 2025.

PANEP Vol. 8 — Ozempic, Atalho ou Armadilha? Os efeitos invisíveis dos agonistas do GLP-1 no corpo, cérebro e comportamento . Programa Avançado de Neurociências e Psicologia, 2026.

Anotações próprias da pós-graduação em Neurociência do Comportamento (regulação hipotalâmica de leptina, grelina e núcleo arqueado).

Maicon Batista · Educador Físico · Nutricionista · Neurociência do Comportamento

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