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10 de agosto de 2026 · Newsletter

O diagnóstico da sua dor pode estar errado

Muitos de vocês chegaram até mim por causa de dor. Muscular, articular, ligamentar.

Quando eu me especializei nisso dentro da educação física, principalmente na parte postural, o protocolo era claro. A gente fazia uma avaliação minuciosa e, no meio dela, as fotos posturais. A partir daquela imagem parada, a gente tirava as inferências: de onde a dor vinha, ou onde ela ia aparecer lá na frente.

Só que a ciência não para. E ultimamente ela anda a galope.

E o que ela vem mostrando é o seguinte: a foto perdeu o poder de dizer o que está acontecendo. O que interessa de verdade não é o corpo parado. É o corpo em movimento.

Repare na diferença. Uma foto congela um instante. O movimento é o filme inteiro, e o filme não é só o gesto motor. É tudo que está acontecendo com a pessoa naquela fase. O ambiente, o sono, o estresse, a carga da semana, a história daquele corpo.

E aqui eu preciso que você preste atenção, porque isso muda muita coisa.

A dor que aparece dentro da academia nem sempre nasce dentro da academia. Muitas vezes o movimento é só o gatilho. A causa ficou lá fora.

Deixa eu te dar alguns exemplos, porque isso fica mais claro do que qualquer explicação. Começa pelo sono. Pensa numa pessoa num período de estresse pesado, dormindo mal, com a cabeça sobrecarregada. Aí do nada aparece uma dor num exercício que ela sempre fez sem problema nenhum. A tentação é olhar pro exercício e culpar o exercício, é o mais simples. Mas o exercício não mudou. A pessoa é que mudou.

E isso não é achismo. Quem dorme mal tem mais risco de desenvolver dor, ponto. Teve um estudo com mais de cem mil pessoas mostrando que problema de sono aumenta a chance de dor lá na frente. E outro que mostrou o porquê: quando você fica privado de sono, o seu limiar de dor cai. O corpo passa a sentir mais dor pelo mesmo estímulo. A mesma carga que na terça não incomodava, na sexta dói, com a cabeça fervendo e três noites mal dormidas nas costas.

Esse é um. Agora um segundo que quase ninguém liga com dor: a comida. A base ultraprocessada, essa dieta ocidental que virou padrão, deixa o corpo num estado inflamado, com estresse oxidativo rolando o tempo todo. E corpo inflamado sente mais dor, porque a inflamação mexe direto na sensibilidade do sistema nervoso. Teve uma revisão juntando 43 estudos: quando a pessoa troca a porcaria por comida de verdade, a dor cai de um jeito que dá pra medir, não é aquela melhora sutil de placebo. E o detalhe elegante é que não importava qual dieta, low carb, mediterrânea, tanto faz. O que mexia o ponteiro era a qualidade do que entrava no prato. Coisa que a foto postural jamais ia captar, porque essa via é química, não mecânica. E seu corpo é uma coisa só: mecânico mais químico. Tanto que um gesto motor depende de uma via química pra acontecer. Bonito né?

E aí vem o exemplo que talvez você nunca tenha ligado uma coisa na outra. Existe uma classe de remédio, o antidepressivo, que os médicos usam há décadas pra tratar dor crônica. A maior revisão que existe sobre isso, com quase trinta mil pessoas, confirmou que funciona. E tem um detalhe: funciona igual em quem não está deprimido. A maioria desses estudos nem incluiu pessoas com depressão, e o alívio da dor apareceu do mesmo jeito. Já viu isso com alguém? Você está com uma dor no corpo e o médico prescreve um antidepressivo. E ainda existe uma resistência danada de usar, justamente por causa do nome antidepressivo.

Repara que não é a cabeça inventando dor. É o contrário. O remédio age nas vias que o sistema nervoso usa pra modular a dor, e por isso alivia mesmo em quem não tem nada de emocional. A dor não é só um problema local do músculo. O sistema nervoso inteiro processa ela, regula ela, às vezes amplifica ela.

E tem um quarto que fecha bem essa ideia: o ambiente. Pega quem sente dor num movimento ou num lugar específico. O instinto é fugir daquilo. Só que quando a pessoa vai fazendo o contrário, se expondo devagar e com segurança, uma coisa acontece: o que era ameaçador vai virando familiar, vira a casa dela. E o cérebro lê isso. Sinal de perigo aguça a dor, sinal de segurança acalma. E não é só coisa da cabeça. O simples ato de se mover já reduz a sensibilidade à dor, o próprio sistema nervoso passa a inibir mais a dor. E outra: seu corpo fabrica o próprio canabinoide quando você se move. É da mesma família daquilo que a medicina hoje extrai da maconha, o CBD, que já usam pra tratar dor, epilepsia, ansiedade. A diferença é que o seu o corpo faz de graça, só mexendo. E conforme a confiança volta e o movimento fica mais variável, mais solto, com mais saída, o quadro melhora de verdade. Às vezes o remédio pra dor não é parar, nem correr atrás de "consertar o alinhamento". É se expor com segurança e deixar o corpo fazer o que ele já sabe fazer.

Talvez a sua dor seja mais do que você está pensando.

E é por isso que o acompanhamento de perto faz tanta diferença. Muita gente paga por um profissional e entrega só a foto: "está doendo aqui". Só que sem o filme, sem a conversa sobre como anda o sono, a rotina, a cabeça, a carga da vida, a comida, o profissional fica de mãos atadas. Ele acaba tratando o lugar errado, porque só recebeu uma foto.

E aqui está o ponto que eu mais quero que vocês levem.

A gente foi ensinado a olhar o corpo como um prédio. Como se cada peça tivesse um lugar fixo e qualquer coisa fora do esquadro fosse defeito. Só que a gente não é concreto. Somos organismos vivos, e a coisa que mais desenvolvemos foi justamente a capacidade de resolver cada tarefa do nosso próprio jeito.

Vou te dar um exemplo. Eu e você podemos fazer um agachamento idêntico. Mesma angulação, mesma profundidade, a mesma intenção de "puxar" determinados músculos. Por fora, dois movimentos iguais. Por dentro, a ordem em que os músculos ativam pode ser completamente diferente.

E isso não é teoria minha. Num estudo, pegaram nove pessoas e pediram que todas fizessem a mesma coisa: manter o equilíbrio quando foram desestabilizadas, com os mesmos músculos disponíveis. Quatro delas seguraram usando uma organização muscular diferente das outras. Mesmo objetivo, mesmo resultado por fora, caminho muscular distinto por dentro. Não existe "o padrão certo único". Existe o seu, e existe o meu.

É por isso que a mesma receita pronta funciona pra um aluno e falha pro outro, mesmo quando os dois parecem ter o "mesmo problema" na foto. Nunca foi o mesmo problema. Foi a mesma descrição preguiçosa colada em dois corpos que não têm nada de iguais por dentro.

Você não é um prédio com uma trinca na parede. Você é um filme.

Comece a se enxergar como um ser humano único, você realmente é. E ninguém entende um filme olhando um único frame.

Maicon Batista · Educador Físico · Nutricionista · Neurociência do Comportamento

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