Oi pessoal, esse é um novo espaço para conversar com vocês de forma mais profunda.
Recentemente vocês sabem que minha filha Celina nasceu. E dentro desse novo desafio de ser pai, uma pressão enorme de educar uma filha caiu sobre mim de forma forte.
Antes eu pensava na vida “pra frente”, do tipo qual o próximo passo, qual o próximo desafio?
Agora as coisas mudaram para: “o que eu preciso entregar pra ela nesse momento?”
E eu achando que ia ensinar muita coisa pra ela e foi exatamente o contrário. Ela que começou me ensinando a viver mais o agora.
Não vou romantizar o processo. O fato de ser pai é bonito, sim. Mas me vi num momento vulnerável em relação às minhas emoções. Noites mal dormidas, demandas com filha, trabalho, esposa. Vira um turbilhão na sua cabeça.
E para alguém que necessita de uma alta previsibilidade do que vai acontecer, precisei parar, ficar só, e analisar o que precisava reconstruir.
E adivinha? Começava com uma reorganização dos meus hábitos e comportamentos ligados à alimentação, ao meu condicionamento físico e às minhas próprias emoções.
Estou lendo um livro do Robert Fritz chamado “O Caminho da Menor Resistência”. A tese central dele é simples e me acertou em cheio:
A estrutura da sua vida determina seu comportamento. Não sua força de vontade.
Assim como a água corre pelo caminho de menor resistência determinado pelo terreno, sua energia e seus hábitos correm pelo caminho que a estrutura da sua vida permite.
Se você quer mudar de verdade, não adianta tentar mais forte. Você precisa mudar a estrutura.
E é exatamente o que acontece quando nasce um filho: a estrutura antiga é destruída. Seus horários, sua rotina, seu sono, sua alimentação. Tudo muda de uma hora pra outra. Os hábitos antigos quebram não porque você ficou fraco, mas porque a estrutura que sustentava eles simplesmente não existe mais.
A maioria das pessoas tenta “voltar ao normal”. Lutam contra a nova realidade. Força de vontade pura. E oscilam. Melhoram uma semana, desabam na outra. Perdem peso, recuperam. Organizam a vida, desorganizam de novo.
Fritz chama isso de oscilação : dois elásticos puxando em direções opostas. Você quer ser saudável, mas sua estrutura puxa pro caos. Muita energia gasta, nenhum avanço real. Igual uma cadeira de balanço. Muito movimento, nenhum progresso.
A saída não é lutar mais. É projetar uma nova estrutura onde o comportamento certo se torna o caminho natural.
Foi o que fiz.
Antes de ser pai eu escutava muito de alunos: “você vai ver quando tiver filho como é fazer dieta, como é treinar na academia.” E eu sempre tentava achar uma solução pra eles, mas no fundo batia aquilo: pode ser verdade, e como vou confrontar algo que não vivo?
Hoje vejo que não só é possível, como é necessário. Depois que entendi que precisava me concentrar no agora, na minha filha, nos cuidados com ela e com a casa, vi que cuidar do meu corpo não era mais sobre o resultado que viria, mas sobre como eu estaria no presente para dar conta de tudo.
Nosso corpo funciona como um joguinho que tem uma barra de “life”. Tudo que você faz ao longo do dia consome essa barra. Se você gasta energia com coisas que não consegue prever nem controlar, chega no final do dia zerado.
Então reestruturei. Não com força de vontade. Com planejamento:
Retirei hábitos que consumiam além do que eu pudesse controlar. O jiu jitsu por exemplo era algo que gostava muito, mas incompatível com minha rotina atual. A imprevisibilidade do treino, o horário variável, a intensidade que não controlo, a recuperação incerta. Consumia uma fatia enorme da minha barra de life.
Me concentrei na musculação, que é a única modalidade onde você consegue controlar todas as variáveis. Horário, volume, intensidade, progressão. Previsibilidade total.
Revi meus biomarcadores, o famoso exame de sangue, e ajustei a alimentação à minha realidade atual. Não à que eu tinha antes.
E o sono? Não vou mentir dizendo que durmo 8 horas como antes. Não durmo. Mas planejamos aquilo que temos controle. A higiene do sono da Celina, os horários de soneca, a amamentação. Controlamos tudo por aplicativo.
E aqui preciso falar uma coisa: pra mulher que amamenta é muito mais difícil. Ela levanta de madrugada, ela acorda com o choro, ela alimenta. O desgaste físico e emocional é outro nível. O que tentamos fazer é minimizar os danos, separando horários específicos do dia pra ela recuperar. Não é perfeito, não é fácil. Mas é a realidade que temos e é com ela que temos que lidar.
O caminho da menor resistência seria simplesmente se entregar à escuridão. A escuridão do automatismo, da comida fácil, do sono desregulado, da falta de academia, do trabalho de qualquer jeito, do estímulo dopaminérgico infinito do celular.
Mas quando você muda a estrutura, quando projeta sua vida para que o comportamento saudável seja o caminho mais fácil, não precisa de disciplina heroica. Precisa de planejamento.
“Aquilo que vós aguardais já veio, mas vós não o conheceis.”
Enfim, esse é um espaço para conversar com vocês de forma mais pessoal sobre toda a maquinaria que envolve cuidar da nossa saúde.
Até a próxima.
Maicon Batista. Educador Físico, Nutricionista, Neurociência Comportamental.
