Se eu plantasse uma semente num chão de concreto, ela cresceria?
Você pode ter a melhor semente do mundo, geneticamente modificada, cara, selecionada. Joga ela no chão da sua sala e me diz o que acontece.
Acredito que a gente concorde aqui.
Por que eu tô te falando isso essa semana?
Porque você pode buscar o melhor acompanhamento que existir. O treino mais bem elaborado, a dieta mais variada, educador físico, nutricionista, médico, fisioterapeuta, o profissional que for. Se o seu ambiente permanecer o mesmo, a chance de funcionar é pequena.
O ambiente em que você está modula seu pensamento muito mais que você imagina.
Existe uma linha de pesquisa em psicologia do comportamento que estuda exatamente isso, e o achado central é o seguinte: hábito não é só repetição, é repetição num contexto estável. O comportamento fica preso a pistas do ambiente. O mesmo horário, o mesmo caminho, as mesmas pessoas, o mesmo armário aberto na mesma hora. Depois de um tempo, o ambiente puxa o comportamento antes de você decidir qualquer coisa.
Daí vem a parte que eu acho mais interessante. Se o contexto é o que sustenta o hábito, mudar o contexto abre uma janela. Os pesquisadores chamam isso de descontinuidade do hábito: quando alguém muda de casa, de emprego, de rotina, o elo entre a pista e o comportamento se rompe por um tempo, e é ali que a mudança entra com menos resistência. Nos estudos com mudança de residência, essa janela dura em torno de três meses e vai se fechando conforme a vida se reorganiza.
E o ambiente não é só o físico.
Existe aquela frase de que você é a média das cinco ou seis pessoas com quem mais convive. Esses números redondos eu desconfio, do mesmo jeito que desconfio do mito de que hábito se forma em 21 dias. Mas a essência tem fundo real, e nesse caso tem um dado que gostaria de lhe apresentar.
O estudo mais conhecido sobre isso acompanhou mais de 12 mil pessoas por 32 anos, dentro do Framingham Heart Study, e olhou como o peso se movia dentro da rede de convívio. Quando um amigo se tornava obeso, a chance da pessoa também se tornar subia 57%. Entre irmãos, 40%. Entre cônjuges, 37%. E quando a amizade era mútua, os dois se citando como amigo, o efeito quase triplicava.
E eu te falo tudo isso porque eu já passei por esse caminho.
Eu tive um hiperfoco em treinamento. Estudei, e ainda estudo, as várias formas de entregar um bom treino para a realidade de cada pessoa. Depois fui a fundo em nutrição, atrás do que fosse mais prático e simples e que entregasse resultado de verdade dentro do contexto de cada pessoa.
E nesse processo eu fui me frustrando.
Tinha resultado excelente com várias pessoas. Mas muitas ficavam pelo caminho. E eu tenho o costume de puxar pro lado negativo: posso ter dez casos bons, mas é o que não deu certo que fica martelando.
E aí a pergunta que não me largava: por que alguns não conseguem?
Foi por isso que eu fui para a neurociência. O que passa na nossa cabeça que às vezes não deixa a gente chegar onde quer?
Você vai achar vários nomes para isso. Eu resumo em dois: modelo mental.
Somos moldados pelas experiências que tivemos, pelas pessoas com quem convivemos, pela cultura, pelo que consumimos. Tudo isso afunila em uma coisa: você. E o modelo mental funciona como o solo. Ele decide o que germina.
Essa semana eu achei importante falar disso porque eu também estou nessa busca. Sabe quando você chega num ponto e pensa: deu. Preciso mudar alguma coisa, preciso de ares novos, quero mais.
Te convido a olhar pro seu chão antes de olhar pra semente.
Quais ambientes você tem frequentado? Com quem você tem convivido? O que você tem consumido? Isso tudo está apontando pro lugar onde você quer estar daqui a alguns anos?
Bora caminhar nisso juntos?
Uma boa semana pra você.
Até breve.
